“No intermédio entre um segundo e outro do relógio eu me escondo. Me oculto pela distração das pessoas ao meu redor, e tento retardar essa pressa que o tempo têm de me levar pra longe. As paisagens foscas dessa cidade vazia acinzentam minha alma, minha mente está descolorida. Sem metas, sem amores, sem crenças absurdas para me orientar. A poluição me cega, o egoísmo tenta me acolher, e mais uma vez, eu fujo. Os ruídos dos automóveis e aparelhos eletrônicos me incomodam; mas nada se comparam ao rosnado cruel que as pessoas emitem. Palavras medíocres, palavras vulgares, palavras falsas. Apenas palavras, que só contradizem ao modo com que elas agem ou afirmam pensar. A respiração humana me contamina, o medo transparece pelos olhares sombrios, desdenhosos, indiferentes. Seres humanos errantes. Seres humanos perdidos. Seres humanos, quase tão deslocados quanto eu.”... -